leituras e rascunhos

Reveladas cartas inéditas de Mário de Andrade

A Folha teve acesso a trecho de correspondência enviada por Manuel Bandeira ao escritor e a duas cartas do autor de “Macunaíma” a seu secretário particular; acervo inédito será aberto para consulta nesta segunda em São Paulo

PATRICIA DECIA
da Reportagem Local
Nesta segunda-feira, um mistério que se arrasta há 52 anos será revelado ao público. As cartas recebidas pelo escritor Mário de Andrade, autor de ”Macunaíma” e um dos mais importantes intelectuais brasileiros, serão colocadas à disposição para consulta no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da Universidade de São Paulo (USP), sob a forma de catálogo.
Ao todo, deverão ser 7.000 documentos, entre mensagens enviadas e recebidas, que ficaram trancafiados por cinco décadas, a pedido do escritor. Com cartas desconhecidas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond e Villa-Lobos, entre outros, a revelação do acervo é um dos maiores acontecimentos literários das últimas décadas.
Também vem à luz outro volume de correspondência inédita de Mário de Andrade (1893-1945), que não faz parte nem do acervo do IEB. A Folha publica hoje, com exclusividade, duas das cartas do escritor a José Bento Faria Ferraz, seu secretário particular entre 1934 e 1945 (leia entrevista à pág. 4-4). Elas devem ser reunidas por Marcos Antônio de Moraes no livro ”Minúcias do Cotidiano”.
Acervo
Guardadas sob absoluto sigilo desde a morte de Mário, as cartas recebidas pelo escritor prometem revelar aspectos singulares sobre os artistas e o meio literário brasileiro nas décadas de 20, 30 e 40.
Um dos principais conjuntos é a correspondência com o poeta Manuel Bandeira, considerada por acadêmicos que já a analisaram como ”o mais importante documento do modernismo brasileiro”. A Folha também traz hoje trecho inédito de uma dessas cartas (leia nesta página).
O acervo inclui cartas de personalidades como Pedro Nava, Henriqueta Lisboa, Murilo Rubião, Fernando Sabino, Prudente de Moraes, Guilherme Figueiredo, Villa-Lobos e Erico Verissimo.
A correspondência foi lacrada pela família do escritor após sua morte, respeitando pedido feito em testamento. Ficou até 1967 na casa que foi de Andrade, na rua Lopes Chaves, Barra Funda (zona noroeste de São Paulo).
Naquele ano, foi adquirida pela USP, numa iniciativa do professor e escritor Antonio Candido, junto com todo o acervo que forma hoje o Arquivo Mário de Andrade.
São 30 mil documentos _entre textos jornalísticos, pesquisas etnográficas e musicais, correspondência, manuscritos de obras_, uma biblioteca de 17 mil volumes, três coleções de artes plásticas e objetos pessoais.
O acervo foi tombado como patrimônio nacional em 11 de setembro de 95, após um processo que durou 15 anos. De todo esse material, no entanto, a correspondência passiva (recebida) é o único conjunto ainda não revelado.
Para deliberar sobre seu destino foi criada uma comissão, formada pelas professoras Telê Ancona Lopes, Marta Rossetti Batista e Flávia Toni, pelo escritor Antonio Candido e sua mulher, a ensaísta Gilda de Mello e Souza, por Carlos Augusto de Andrade, sobrinho do escritor, e pelo estagiário Marcos Antônio de Moraes.
A comissão de um grupo restrito de pesquisadores começou a abrir e catalogar a correspondência há cerca de dois anos, quando foi cumprido o prazo estipulado por Mário. Mas decidiu proibir o acesso ao material até que todo o trabalho estivesse realizado.
Outro ponto que ainda pode restringir a consulta às cartas é a questão jurídica. Isso porque, apesar de os documentos pertencerem ao IEB, seu conteúdo intelectual é dos autores ou de suas famílias. Segundo Telê Ancona Lopes, apenas com autorização do familiar é que os textos poderão ser consultados.

Diálogo com Bandeira é mais importante

da Reportagem Local
É um acontecimento literário. O documento mais importante do modernismo. A história subterrânea do movimento de 22. A discussão sobre os caminhos da poesia.
Assim os professores Davi Arrigucci Jr. e Luiz Roncari definem os 22 anos de correspondência entre Manuel Bandeira e Mário de Andrade, o conjunto mais importante dentro de toda a correspondência passiva a ser revelada.
Tal qualificação se explica, entre outras coisas, pelo fato de que é com Bandeira que Andrade tem um relacionamento de “igual para igual”, abandonando o “tom professoral” que norteia, segundo os professores, sua correspondência com vários interlocutores.
“Os dois se dizem coisas por carta que não se disseram à viva voz. Isso mostra as dificuldades dos dois em relacionamento direto, mas que se abre muito, fica confessional quando por escrito. Paradoxalmente, o período em que estão mais próximos é o período em que estão mais distantes. Há momentos extraordinários”, afirma Arrigucci, crítico literário e professor de literatura brasileira na USP.
Essas cartas estão na tese de mestrado “Diálogo Epistolar: Edição da Correspondência Mário de Andrade-Manuel Bandeira”, defendida no final de junho por Marcos Antônio de Moraes, na USP.
Além das cartas inéditas de Bandeira, a tese resgata três novas cartas de Andrade e trechos cortados da correspondência publicada pela primeira vez em 1958. Agora, há apenas uma carta que continua lacrada (leia abaixo). As cartas cobrem o período de 1922 a 1944. Até 1939, a frequência é semanal.
“O que começa como sendo uma grande amizade intelectual, a correspondência de dois poetas, vai evoluindo para o diálogo de dois amigos. Ao mesmo tempo, a imagem da poesia pronta, irretocável, muda. O trabalho poético adquire uma conotação muito humana, um influenciando a poesia do outro. São pessoas com dúvidas, fraquezas, dilemas. Há muita confidência, muita confissão”, afirma Roncari, escritor e professor de literatura brasileira na USP.
Segundo Arrigucci, o valor da correspondência pode ser analisado dos mais diferentes aspectos: como documento de crítica literária, registro histórico, mostra das relação pessoais de intelectuais e de relações urbanas.
“É um documento único sobre poética, tanto no sentido prático, de como construir a poesia, quanto do ponto de vista da teoria. Eles discutem minuciosamente um número enorme de poemas que estão na obra poética de cada um e outros que foram rejeitados. Falam de verso, métrica, ritmo, imagem, linguagem”, diz Arrigucci.
Há comentários sobre obras como “Libertinagem” e “Guia de Ouro Preto”, de Bandeira, e “Amar, Verbo Intransitivo”, “Losango Cáqui” e “Macunaíma”, de Andrade, entre outras.
Outro ponto é um balanço das amizades e relações pessoais no período. Há comentário sobre Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros.
Sobre Manuel Bandeira, Arrigucci ressalta que é evidente, com as cartas, que existe uma “simplicidade de relação do cotidiano correlato aos poemas escritos”. Ele dá como exemplo a carta em que Bandeira conta sua mudança do Curvelo para a Lapa, no Rio.
“É como o poema do cactus, áspero, belo, intratável, com um despojamento notável. O mesmo despojamento está na poesia, a simplificação do traço estrutural faz parte da vida de relações”, diz o crítico literário.

Uma carta continua lacrada

da Reportagem Local
Todo o mistério envolvendo a correspondência de Mário de Andrade não será revelado por inteiro. Uma carta enviada pelo escritor a Manuel Bandeira continua lacrada, na Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro.
Sobre ela, nem os mais íntimos do acervo do escritor fazem comentários definitivos. ”Ouvi dizer que existe, mas não sei detalhes”, desconversa a professora Telê Ancona Lopes, responsável pela organização do Arquivo Mário de Andrade do IEB.
Há rumores de que tal carta conteria uma revelação pessoal da vida de Mário de Andrade ligada à sexualidade do escritor. ”Sei do que todo mundo sabe, mas não há certezas”, disse Luiz Roncari.
O ex-secretário particular de Mário, José Bento Faria Ferraz, 85, é outro que ouviu falar da carta. Acha que talvez ela possa conter detalhes sobre o período em que Mário de Andrade ficou no Rio.
”Soube que na estadia de Mário no Rio ele usava tóxicos, cocaína, sei lá o quê. Agora, se ele era homossexual, não sei. Eu acho que isso tudo não destrói o valor da obra de Mário de Andrade”, afirmou.
José Bento conta que, nos anos 60, um estudo feito por alunos de uma escola de Ribeirão Preto concluiu, pela análise de contos, que o escritor era homossexual.
”Numa ocasião, fui a um congresso em Belo Horizonte e Antonio Candido estava lá. Eu levantei esse problema e ele me disse que Mário de Andrade foi um heterossexual. Mas, e que fosse homossexual? Oscar Wilde foi. E que fosse?”, disse.
Segundo Davi Arrigucci Jr., o homossexualismo de Mário de Andrade está insinuado em uma carta em que Bandeira comenta o poema ”Girassol da Madrugada”. ”Ele dá conselhos para que certos trechos sejam suprimidos, a menção a um louro espanhol. Mas se fala muito de mulher, de paixões por mulheres”, afirmou.
Para o crítico, a sexualidade do escritor é um aspecto relevante. ”Tenho a impressão de que há momentos em que isso é importante para discutir questões de estilo e para decifrar referências dos poemas. E, certamente, a sexualidade não é coisa pequena”, disse.
O crítico literário Silviano Santiago vai além do documento lacrado e lembra que, apesar das cartas de Bandeira serem constantes até 44, a correspondência de Andrade pára em 35. ”É preciso saber se existem cartas após 35 e qual é seu tom. Não as conheço, ninguém as viu, mas elas teriam um lado confessional”, disse.

Leia correspondência com secretário

Cerca de 50 documentos inéditos enviados a ex-empregado particular estão sendo reunidos em livro

da Reportagem Local
”É o Mário na casa dele, que a gente ainda não tinha”, diz Marcos Antônio de Moraes, o responsável por reunir as cartas inéditas de Mário de Andrade a seu secretário particular entre 1934 e 1945, José Bento Faria Ferraz, 85, para a publicação em livro.
”Minúcias do Cotidiano” (título provisório) trará cerca de 50 documentos, entre cartas e bilhetes, a maioria referente ao período em que Andrade passou no Rio de Janeiro, após ser demitido do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, em 1938.
”Na vida de um escritor, nem tudo é discussão literária. Essa é a primeira correspondência que traz a vivência miúda, o conserto da Manuela _a máquina de escrever_, o controle do dinheiro”, afirma.
Moraes trabalha como estagiário no Arquivo Mário de Andrade, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), faz parte da comissão que delibera sobre a correspondência do escritor e, em junho, defendeu tese de mestrado sobre a correspondência Andrade-Bandeira.
Zé Bento, como o chamava Mário, foi secretário, bibliotecário, responsável pela limpeza e conservação dos livros, além de ajudante na pesquisa de textos.
Conheceu Mário de Andrade no Conservatório Dramático Municipal de São Paulo, onde foi seu aluno nas aulas de Estética e História da Música. Mineiro de Pouso Alegre, vivia em São Paulo com a mãe e a tia, a quem tinha de sustentar.
Mas foi também da mãe que ele herdou o gosto pela música, que o levou ao conservatório. ”Minha mãe me preparou para o encontro futuro que teria com Mário de Andrade. O cultivo pelas artes, o amor pelo livro foram misteriosamente penetrando em mim e isso eu devo a ela”, diz Zé Bento.
A necessidade de trabalhar o fez prestar concursos públicos, mas se lamentava de ter de deixar São Paulo, onde nutria vida intelectual. Fez esses lamentos a Andrade, numa conversa após as aulas.
Um tempo depois, Andrade o chamou para jantar e fez o convite. Queria que ele substituísse sua irmã, que iria se casar, nas funções de secretário particular. Por um salário de 200 réis, Zé Bento trabalhava três horas diárias na casa de Andrade, na rua Lopes Chaves.
Durante os 11 anos de trabalho, Zé Bento também abria cartas e copiava os textos na máquina de escrever.
Como recompensa, recebeu uma citação em seu testamento como o destinatário de uma soma em dinheiro nunca encontrada e aparece num dos poemas da ”Lira Paulistana”.
”Essa referência é muito sintomática da amizade deles, uma amizade de possibilidades”, diz Moraes.

”Quando Mário morreu, fiquei solto no mundo”

da Reportagem Local
As lembranças de Mário de Andrade estão por toda a casa de José Bento Faria Ferraz, 85, que foi seu secretário particular por 11 anos.
Fotos, caricaturas e livros do escritor decoram a sala, o escritório e ”livraria”, como ele chama a biblioteca com centenas de volumes amontoados. Foi lá, no bairro paulistano de Perdizes, que ele concedeu entrevista à Folha por mais de duas horas. Leia a seguir os principais trechos.(PD)

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Folha – Como o sr. foi trabalhar com Mário de Andrade?
José Bento Faria Ferraz – Ele me disse que sua irmã iria se casar e ele tinha pensado em mim para substituí-la. Me deu um estalo de emoção muito grande. Minhas pernas tremeram, até tive uma incontinência urinária de tanto pavor, de medo de trabalhar com Mário.
Dois meses depois, comecei a trabalhar com ele. Isso foi de 1934 até 1945. Foi aquele contato diário em que você vai conhecendo a pessoa, naquela intimidade do exercer diário da vida.
Folha – Como era o cotidiano?
José Bento – O trabalho começava às 7h30. Mário já estava pronto, de robe de chambre, pijama, com seu banho tomado. Ele ficava na escrivaninha que foi de seu pai e e eu ao lado, naquela velha máquina de escrever, a Manuela, homenagem ao Bandeira.
O Mário me passava os artigos que ele fazia a mão ou mesmo na máquina, que ele só datilografava usando dois dedos. O método de trabalho do Mário era extraordinário. Passava-me os rascunhos, eu batia, punha na mesa dele, ele deixava descansar nas gavetas alguns dias. Aí era a hora da ceifa e de riscar com um lápis vermelho.
Muitas vezes, eu chegava cedo e surpreendia o Mário de Andrade fazendo sua barba com navalha e declamando o ”Juca Pirama”, do Gonçalves Dias, o ”Navio Negreiro”, de Castro Alves, ou então Shakespeare, Poe, de quem ele gostava muito, como ”O Corvo”.
Folha – Ele era vaidoso?
José Bento – No sentido de vaidade fútil, não. Era um homem, vamos dizer assim, limpo, muito refinado, muito bem posto na vida. Apesar de sua pobreza, ele usava sapatos feitos especialmente por ele numa sapataria da rua 15 de Novembro. Me pedia sempre: Zé Bento, vá à perfumaria Lopes, à rua José Bonifácio, e compre uma loção. Era para passar na careca.
Ele gostava muito de, depois de fazer a barba, tomar seu banho de imersão. Às 9h30, batiam à porta e era sua mãe, já idosa, trazendo numa bandeja de prata o cafezinho.
Folha – Como era seu relacionamento pessoal com ele?
José Bento – Era um relacionamento de mestre e aluno. Nunca perdi isso. Eu gostaria de ficar na sombra, como o secretário de Goethe. Nunca perdi aquele sentido religioso que eu tinha pela pessoa do Mário, um respeito…
Diante de mim, havia algo inesgotável. O Mário para mim, digo sempre, é uma Serra Pelada de Carajás. Quanto mais se estuda, mais coisas surgem.
Folha – Como foi o período que ele passou no Rio?
José Bento – Aí começou seu sofrimento. Ele foi demitido do Departamento de Cultura em São Paulo, acusado de desviar verbas. Isso o magoou profundamente. Mário recebeu um convite do ministério e foi então para o Rio.
Ele queria viver lá no mesmo ambiente do estúdio dele. Pediu-me para enviar algumas obras e vários livros fundamentais, e aí começou aquela vida intensa entre mim e ele, mandando cartas e bilhetes pedindo coisas.
Folha – Como ele era nos relacionamentos pessoais?
José Bento – Não posso dizer muito, porque tinha de trabalhar e não podia sair à noite com os amigos do Mário, que iam tomar um chopinho no Franciscano. Digo que o Mário se deu por inteiro na correspondência com sua grande amiga Henriqueta Lisboa.
A gente sente um amor platônico e, do lado de lá, um amor apaixonado da Henriqueta. Quem souber ler nas entrelinhas, verá. Nas respostas de Mário, você sente que há aquela empatia, aquela comunhão de dois seres que se conhecem e começam a se gostar não no aspecto mesquinho que se esgota no gostar sexualmente. Mas aquele se gostar platônico, esteticamente, criativamente.
Folha – Como foi, para o sr., a morte dele?
José Bento – A morte de Mário. Não dá (fica com os olhos cheios de lágrimas). Fiquei órfão três vezes: quando morreu meu pai, em 1920, quando morreu meu padrinho, em 1926, e quando morreu o Mário, em 1945. Minha vida teve três movimentos.
Quando o Mário morreu, fiquei como que solto no mundo, sem apoio. O primeiro infarto que ele teve foi à noite, de sábado para domingo. E, na madrugada de domingo, ele teve o segundo.
Nesse sábado, achei o Mário de robe de chambre. Ele estava pálido, eu até fiquei assustado. Deu meu tempo de serviço, eu saí, eram umas seis da tarde.
Domingo de manhã, toca a campainha às 7 da manhã, era o Sílvio, marido da Oneyda (Alvarenga, ex-aluna e assistente do escritor). Ele me disse que o Mário não estava passando bem. Mas eu não sabia. Ele já estava morto.

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Carta lacrada não deve ser mostrada

Correspondência do escritor para Manuel Bandeira foi fechada em 78 por decisão de Plínio Doyle

PATRICIA DECIA
da Reportagem Local
A carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, um dos últimos documentos inéditos do escritor, foi lacrada em 1978 pelo advogado Plínio Doyle, criador do arquivo literário da Casa de Ruy Barbosa, no Rio, por se tratar de assunto ”muito pessoal”.
Ela conteria o maior segredo em torno da figura de Mário de Andrade, que muitos achavam que poderia ser revelado com a abertura da correspondência recebida pelo escritor, ocorrida dia 21, em São Paulo. A carta traria a principal evidência da bissexualidade do autor de ”Macunaíma”.
Ninguém afirma à imprensa já ter lido a carta. No entanto, segundo a diretora-executiva da Casa de Ruy Barbosa, a historiadora Rosa Maria Barboza de Araújo, 48, vários pesquisadores tiveram acesso ao seu conteúdo, entre eles a professora Telê Ancona Lopez, coordenadora da equipe responsável pela catalogação da correspondência de Andrade.
Nem mesmo o sobrinho de Mário de Andrade, o engenheiro Carlos Augusto de Andrade Camargo, afirma conhecer detalhes do documento. ”Se essa carta existe, nós não temos nada planejado sobre a abertura dela”, afirmou.
Constituição
Juridicamente, família e instituição podem manter o documento lacrado por quanto tempo quiserem. Toda a correspondência está protegida pelo direito à intimidade, garantido pela Constituição. No entanto, quando se completarem 60 anos da morte do escritor _o que acontecerá em 2005_, os documentos passam a ser de domínio público.
Doyle, 90, diz que tomou a decisão sem consultar a família de Andrade. ”Não consultei a família. Mostrei a carta para o grupo que trabalhava comigo e nós tomamos a decisão. Isso acontece quando há algo que possa ser ruim para alguém vivo, ou uma crítica muito forte, ou ainda detalhes muito pessoais”.
Doação
A carta foi para a Casa de Ruy Barbosa como parte do acervo do poeta Manuel Bandeira, doado por sua companheira, Maria de Loures Heitor de Souza. ”É uma senhora, uma funcionária pública aposentada, que passou a morar junto com o Bandeira num apartamento de Copacabana”, conta Doyle.
Como todas as doações, essa foi objeto de um contrato entre as partes, explica Barboza de Araújo. ”O doador permite que se organize, trabalhe, faça estudos, mas a ele é reservado o direito de lacrar e tirar cópias. No caso dessa carta, o próprio Plínio Doyle achou que merecia reserva e isso foi respeitado”, disse.
Segundo Doyle, que também foi diretor da Biblioteca Nacional entre 79 e 83, há outros documentos fechados e guardados em cofres na Casa de Ruy Barbosa.
A carta polêmica teria sido mostrada pela última vez durante o 1º Workshop de Manuscritos, realizado entre os dias 23 e 25 de junho. No evento, foram examinadas partes dos acervos de Rachel de Queiroz, José de Alencar, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Pedro Nava, entre outros.
Participaram do workshop pesquisadores da Casa de Ruy Barbosa, da Universidade Federal Fluminense, da Universidade de Assis e do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da Universidade de São Paulo.

IEB limita acesso a documentos

A correspondência do escritor Mário de Andrade só poderá ser consultada pelo público se o IEB quiser.

PATRICIA DECIA
da Reportagem Local
O Instituto de Estudos Brasileiros tem meios legais de colocar à disposição para pesquisa o texto integral das cartas que ficaram durante 52 anos trancafiadas e foram divulgadas em parte na última segunda-feira.
No entanto, a comissão curadora do material decidiu publicar apenas um catálogo com resumos de três linhas em média para cada um dos 7.688 documentos do acervo.
Até agora o acesso aos originais _ou microfilmes_ só será possível para quem conseguir autorização específica da família dos remetentes.
A professora Telê Ancona Lopes, organizadora do Arquivo Mário de Andrade, membro da comissão curadora e coordenadora do trabalho de catalogação da correspondência, confirma a decisão.
”A comissão resolveu dessa maneira. É uma matéria de muita controvérsia, coisa de muita responsabilidade. É bom que cada interessado se entenda com a família dos remetentes, que se resolva caso a caso”, afirmou.
Segundo Lopes, a comissão teme que partes do acervo sejam publicadas sem autorização, originando processos judiciais baseados na lei do direito autoral.
Além disso, Lopes ressalta que a instituição tem interesse em saber para quais fins as cartas serão usadas. ”A pessoa tem que ter um projeto, um trabalho. O IEB não tem interesse que qualquer um tenha acesso ao material. Em qualquer instituição séria do mundo é assim”, afirma a professora.
O acervo é composto por 7.688 documentos, sendo a maior parte composta por cartas recebidas por Mário de Andrade (1893-1945) de personalidades do mundo artístico e literário, como Carlos Drummond de Andrade, Tarsila do Amaral, Annita Malfati, Manuel Bandeira, Villa-Lobos e Fernando Sabino.
A correspondência ficou lacrada por 50 anos obedecendo pedido feito em testamento por Andrade. Mais dois anos foram necessários para que fosse concluído o trabalho de organização e catalogação.
Lei
Há duas questões legais ligadas à divulgação da correspondência. A primeira trata de direito autoral e a segunda do direito à intimidade, explica a advogada Lilian de Melo Silveira, especialista em direito autoral que foi consultora da comissão curadora do acervo.
”Para a publicação do material, é estritamente necessário que haja autorização dos herdeiros de quem escreveu a carta. Já no caso da consulta, o impedimento estaria ligado ao direito à intimidade, garantido pela Constituição. Mas o IEB poderia pedir uma autorização genérica aos herdeiros possibilitando a consulta”, afirmou.
Outro especialista no tema, o advogado João Carlos Müller, 57, diz que a decisão do IEB está amparada na lei. No entanto, ele considera a atitude exagerada. ”Não entendo por que um centro de documentação toma tal atitude. Não há impedimentos para que se peça uma autorização genérica, não entendo por que não pedem uma autorização ampla, pelo menos para a pesquisa.”
Segundo Müller, se for tomada a lei 5.988, de 1973, que regula os direitos autorais, mesmo a divulgação dos conteúdos para consulta necessita de autorização dos remetentes.
”O artigo 33 da lei diz que ‘as cartas missivas não podem ser publicadas sem permissão do autor mas podem ser juntadas como documentos em autos oficiais’. A lei brasileira considera como publicação a comunicação da obra ao público por qualquer forma ou processo”, afirmou.
Isso não impede, segundo ele, a tentativa do instituto de conseguir a autorização. ”No campo do direito de autor, o que vale é vontade e liberdade”, disse.
Mais um aspecto levantado pelo advogado é que, caso algum dos herdeiros ache que há material que possa ser ofensivo ao autor da carta, ele pode ser excluída do acervo divulgado. ”Tratando-se de cartas desse tipo, acredito que 97% não devam ter nenhuma restrição familiar”, afirmou.
Sérgio Dantino, que também é advogado especialista em direito autoral, concorda com Müller.
”O IEB poderia pedir uma autorização genérica para efeito de consulta. É uma questão de foro íntimo. Acho injustificado, eles estão sendo rigorosos demais em se tratando de material de valor histórico”, disse.
É bom lembrar que todo o material cairá no chamado ”domínio público”, ou seja, ficará sem tais restrições legais, quando completar 60 anos da morte de cada um dos remetentes.

Arquivo mostra só resumo das cartas de Mário de Andrade

PATRICIA DECIA
da Reportagem Local
Um resumo de três linhas _em média_ sobre cada carta contida na correspondência de Mário de Andrade (1893-1945), mantida por 52 anos em segredo, é o que o IEB colocou à disposição do público ontem.
A consulta aos originais da correspondência só será permitida para quem tiver autorização do autor das cartas ou de seus familiares, em caso de morte.
O catálogo do acervo é composto de oito volumes com referências a 7.688 cartas recebidas e enviadas por Mário de Andrade entre 3 de fevereiro de 1914 e 17 de maio de 1945.
O material foi dividido em três subgrupos: 6.947 cartas recebidas, 599 enviadas por Mário _cópias em papel carbono_ e 142 da correspondência de terceiros, oferecida a Andrade como instrumento para estudo.
Todo o trabalho de catalogação foi feito por um grupo de pesquisadores do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, liderado pela professora Telê Ancona Lopes, organizadora do Arquivo Mário de Andrade.
Numa primeira fase, foi documentada a ordem original das cartas, deixada por Mário de Andrade. Em seguida, ocorreu a catalogação por ordem alfabética e cronológica. Por fim, veio a redação dos resumos e de notas.
Segundo Lopes, o mais difícil foi o trabalho de datação dos documentos. ”Foi preciso fazer investigações e comparações com outras partes do arquivo, como as coleções de arte, as próprias obras e revistas da época.”
Agora será iniciado o processo de microfilmagem dos originais, que deve demorar três meses.
Ontem, uma pesquisadora de João Pessoa foi a primeira a ter acesso a originais. De acordo com Lopes, ela estava consultando as cartas do folclorista Câmara Cascudo, com autorização expressa de sua família.
A Edusp vai editar o catálogo apresentado ontem. Extratos de pelo menos quatro cartas originais e reproduções de cartões postais deverão estar na edição, como material iconográfico.
O IEB também já está negociando com a Edusp a publicação de uma coleção de livros feitos a partir do acervo, sob o título (provisório) de ”Coleção Correspondência de Mário de Andrade”.
O primeiro volume previsto é o das cartas do poeta Manuel Bandeira, seguido pela correspondência do ex-secretário particular de Andrade, José Bento Faria Ferraz. Também está em negociação a publicação das cartas do escritor Murilo Rubião e do pintor Lasar Segall.