18.11.1997
PATRICIA
DECIA
da Reportagem Local
A história do sr. José, funcionário de uma tal Conservatória Geral do Registro Civil, é o motivo da chegada, anteontem, do escritor José Saramago ao Brasil.
Ele está no país para o lançamento de “Todos os Nomes”, seu mais recente romance, em quatro capitais (SP, Rio, Belo Horizonte e Brasília). Durante a estadia, receberá homenagens que vão da leitura de trechos de obras suas até o recebimento do título de doutor honoris causa pela UnB (Universidade de Brasília).
Mas Saramago, no dia em que completou 75 anos, reservou parte do seu tempo para falar. E reafirmou as idéias que norteiam sua literatura povoada de gente comum, que tem de fazer opções num momento da vida. Decisões que são “marcos de libertação”, como ele mesmo diz.
“Acho que o leitor vai se libertando também, não se sabe de quê, mas é como se aquilo que está a passar-se ali mostra que há outras coisas possíveis”, afirmou. A seguir, trechos da entrevista.
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Folha – Que lugar “Todos os Nomes” ocupa em sua obra?
José Saramago – O livro é uma reflexão sobre quem é o outro. Talvez eu não chegue a saber nunca quem sou, se não fizer um esforço para saber quem é o outro. Essa busca tem um caráter mais metafísico. Provavelmente era o passo seguinte necessário depois do “Ensaio sobre a Cegueira” e não sei aonde é que vai me levar. A partir dele, eu tenho uma idéia guardada dentro da cabeça. Será outro romance, a conclusão necessária destes dois.
Folha – O sr. escreve sobre a busca da identidade.
Saramago – Creio que está claro que chegamos ao fim de um certo tipo de civilização e vamos entrar em outra. Há uma coincidência com o fim não só do século como do milênio, mas há que ter cuidado com essas visões um pouco apocalípticas, porque é só uma questão de calendário. Mas chega-se ao fim de uma civilização, e todos os valores, ou quase todos, que sustentaram essa civilização _que não foram permanentes, mas foram mudando ao longo dos séculos dentro de si mesmos_, parecem ter se esgotado.
Folha – Vivemos num momento de transição?
Saramago – Diria que a minha geração é a última desta civilização que foi a nossa. A vossa geração é que é de transição para o que vem a seguir. E que não sabemos exatamente o que seja. Não tenho idéia nenhuma de como será o futuro. Serão outros valores, outra forma de entender. Mas aquilo que queria que não se perdesse, o que, do meu ponto de vista, é um valor fundamental, é o respeito pelo outro. Mas os indícios não apontam a esse respeito, pelo contrário.
Folha – O sr. teme o futuro?
Saramago – Eu temo o que venha a acontecer, mas me preocupa mais a realidade hoje. E a realidade de fato não dá grandes motivos para ser otimista, pelo contrário. Aliás, eu digo que, quanto mais pessimistas haja, melhor. E por uma razão muito simples: para os otimistas, o mundo está ótimo e, portanto, eles não querem mudar o mundo. São os pessimistas que querem mudar o mundo.
Folha – O crítico Antonio Callado escreveu que “Ensaio sobre a Cegueira” é um momento em que a angústia humana cresce tanto que começa a pegar, como um vírus.
Saramago – Que é, queiramos ou não, como estamos a viver. Vivemos na angústia. Sempre houve indivíduos neuróticos, agora o que está nos acontecendo é viver numa sociedade toda ela neurótica. Há uma neurose coletiva, que está numa forma de parábola no “Ensaio sobre a Cegueira”. Nós que somos seres racionais não nos comportamos muito racionalmente. Nós, seres humanos, somos os únicos que inventaram a crueldade. Repare que os animais são todos violentos, e não se pode viver fora da violência. Por cima da violência, os seres humanos inventaram a crueldade. Como podemos continuar a dizer que somos seres racionais se essa racionalidade nos transformou _e creio que não há exagero nenhum naquilo que eu digo_ em feras racionais.
Folha – Mas isso faz parte da história da humanidade.
Saramago – As coisas nunca foram diferentes. A crueldade parece inseparável da condição humana. Talvez tivesse de ser assim. Talvez nós poderíamos ser capazes de opor a razão a essa tentação chamada crueldade _que no fundo é uma tentação do poder, do domínio sobre o outro. Mas a própria razão serve para a crueldade. Os seres humanos torturam outros seres humanos. E nós não paramos para pensar nisso. E não é para cair em evangelismos mais ou menos tontos que não me dizem nada. O que me diz alguma coisa é o respeito pelo outro. A partir do momento em que eu respeito o outro, tudo se torna mais fácil.
Folha – É possível?
Saramago – No plano ideológico ou qualquer outro, o capitalismo impera e não tem adversário _não tem agora, mas não vamos entrar no que seria o último grau de pessimismo que é pensar que será sempre assim. Mas mudar o mundo é mudar as relações humanas. Há um processo de consciência das pessoas que foi interrompido por esta espécie de febre que transformou aquele a quem nós chamávamos antes de cidadão em consumidor.
Fizeram de nós consumidores. Transformaram-nos em clientes. E valemos como consumidores e clientes, para aqueles que efetivamente nos governam, que são o poder financeiro e o econômico. O poder político governa muito pouco. Para o poder real, que é esse tal poder econômico, não há eleitos democraticamente. A democracia só vai até certo ponto.
Folha – E que atitude tomar?
Saramago – Hora bem, se eu tivesse que condensar numa só palavra a atitude de espírito que eu considero necessária nos dias de hoje, essa palavra seria não. Não podemos aceitar o mundo que nos querem obrigar a viver e para sempre. Então, a isso, há que se dizer não todos os dias e em todas as circunstâncias. Agora, o que falta é a organização. Esse não tem de se tornar pouco a pouco consciência coletiva. Não é ainda o momento, mas há de chegar.
O quê: lançamento de “Todos os Nomes”
Com: leitura de trechos por Giulia Gam, Fernanda Torres e Raduan Nassar
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 254, tel. 011/256-2322)
Quando: hoje, às 20h30
Quanto: distribuição de convites no local, das 13h às 18h; assinantes com o Clubefolha têm desconto de 20% na compra de livros