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- Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina.
Leite derramado é prova da virtuose de seu autor. A voz do quatrocentão centenário à beira da morte num leito de hospital público é afinada como Chico gostaria de cantar. Tudo são fragmentos na narrativa sem qualquer cronologia, que se encaixam com precisão graças ao rigor da mão do escritor.
Na infância, Eulálinho Assumpção passava as férias na Europa, hospedava-se no Ritz, vivia entre a fazenda, o chalé de Copacabana e o casarão em Botafogo. Na velhice, termina na Baixada Fluminense, morando de favor num puxadinho de uma igreja evangélica. Sua história, está claro, é a da decadência de uma família de elite brasileira. Decadência associada a Matilde, a moça “de pele quase castanha, a mais moreninha das congregadas marianas”, que “suava bastante”, “gostava de sol”, de samba e de maxixe.
Eulálio vê o mundo com olhos de conservador. Lembra com nostalgia dos feitos do avô senhor de escravos. Guarda com carinho o chicote de um antepassado. Conta orgulhoso as mordomias do pai graças à posição na política. E a ironia que a tudo pontua envolve o narrador mais do que sai de sua boca. Resulta daí grande parte do azedume do livro de Chico. Pois a miscigenação de papel passado, ainda que jamais assumida claramente, desponta como pecado original na linhagem dos Assumpção. É a voz de Eulálio entoando o racismo à brasileira.